O apego

22/09/2010




"QUANDO amamos alguém, também amamos a pessoa na qual nos tornamos ao lado de quem amamos. Gostamos daqueles em quem nos revemos, mas também de quem nos estimula, nos desafia, nos ensina a olhar para o mundo de outra maneira. E depois, porque isso nos faz ficar mais atentos, mais lúcidos, mais qualquer coisa, gostamos de gostar daquela pessoa, sentimo-nos maiores e melhores do que pensávamos ser e é assim que se criam aqueles laços que fazem nós e que mais tarde acabam por se revelar difíceis de desfazer. Não há afecto sem apego, da mesma maneira que não há voo sem queda, nem luz sem sombra. O apego é um pau de dois bicos, tanto nos pode forrar a alma a papel de seda como dar-nos cabo dos dias se aqueles que amamos se afastam de nós.

NUMA ENTREVISTA antiga feita a Agustina Bessa Luís, ela citava o que o avô lhe ensinara: «Apoia-te sempre, nunca te agarres». Aprender a encontrar o equilíbrio entre o afecto e o apego é uma tarefa árdua e perpétua, porque queremos sempre agarrar aqueles que amamos, da mesma forma que os nossos filhos adormecem agarrados a nós ou deixamos que o cão se deite aos pés da cama. O apego é um vírus inteligente e poderoso que cresce e se multiplica de forma descontrolada, que entra em mutação para sobreviver, que se mascara de dedicação e de amizade, que raramente morre embora se possa neutralizar, correndo nas nossas veias sem cor nem forma, sempre em busca de uma circunstância favorável à materialização. E essa circunstância pode ser um olhar, um sorriso afável de alguém que nos chamou a atenção, que nos agradou e que de um momento para o outro queremos tornar próximo. São momentos de prazer difíceis de descrever quando olhamos para alguém e sentimos o sabor doce e morno do apego. Passar do apego à dependência é passar uma linha muito ténue, tão suave como a que separa a generosidade da estupidez. É preciso treinar o espírito e o coração para que o nosso afecto não se torne um peso tantas vezes insustentável para aqueles que amamos.

O problema é que precisamos dos outros para nos vermos. Sem aqueles que amamos por perto, tornamo-nos invisíveis. O amor leva-nos sempre a qualquer lado e situa-nos. Enquanto crianças procuramos instintivamente o amor e resistimos à indiferença com grande heroísmo. Depois, vivemos os primeiros amores da adolescência com todo o fervor e sem medos. A vida vai deixando as suas marcas, com umas aprendemos a amar melhor, com outras transformamos os nossos erros em hábitos.


E O APEGO cresce como uma erva daninha, quanto mais tempo passa, mais difícil se torna vermo-nos sem aquela pessoa ao nosso lado, não apenas porque a amamos e já criámos laços cheios de nós, mas porque o que somos hoje é já resultado do que vivemos, aprendemos e sentimos juntos.
Deve ser por isso que cortar laços é tão doloroso: além da perda do outro, também estamos a abdicar de um bocado de nós mesmos, daquela pessoa na qual já nos transformámos quando estamos com os que amamos. E também é disso que temos saudades."

MRP

7 comentários:

Rita disse...

Muito bom o texto...*

Lebasiana disse...

é bem verdade!

beijocas

Anónimo disse...

Citar Margarida Rebelo Pinto é deprimente...ela é das pessoas com mais vácuo no cérebro =/

Scarlet disse...

Olha que hoje não é bom dia para citar a Guida... anda meio mundo zangado com ela por causa da crónica sobre as gordinhas no Sol ;) e eu, que sou gordinha mas nunca fui como ela nos descreve, fiquei apegada a estas palavras.

Bunyssa* disse...

O facto de citar um texto da MRP não quer dizer que goste de todos os textos, obviamente. E por mt vazio que seja o cerebro da senhora (como mostra no texto das "gordinhas") tem um ou outro texto do qual gosto. Por isso não gosto de generalizar.
"Desculpe", Anónimo, se isso me torna uma pessoa deprimente! :)

Pequenina* disse...

gostei =)*

so_risoincógnito disse...

Eu gostei muito destas palavras. Identifico-me muito com elas pela fase que ultrapasso. Publiquei lá no meu blog, obrigada pela partilha.