Expliquem-me como se eu fosse muito burra

23/03/2011

Entre as diversas questões que constam dos Censos e que já foram faladas nos órgãos de comunicação social, a mais estranha e polémica, para mim, é sem dúvida esta: 

Questão 32 - Qual o modo como exerce a profissão indicada?
Se trabalha a "recibos verdes" mas tem um local de trabalho fixo dentro de uma empresa, subordinação hierárquica efectiva e um horário de trabalho definido deve assinalar a opção "trabalhador por conta de outrem".
 
Os critérios que na prática regulam a conotação usada para classificar um "trabalhador por conta de outrem" são bem diferentes dos critérios e direitos/deveres de um trabalhador a recibos verdes, mesmo no caso dos chamados "falsos recibos verdes".

Então afinal em que ficamos?

9 comentários:

The Closet disse...

Acho que a ideia é saber o n.º de pessoas que estao nessa condição mas duvido que façam algo contra isso sinceramente

Suspiro disse...

Ficamos em que no final, estatisticamente, vamos ser um pais sem recibos verdes e sem precários. Acho que a ideia é essa... Atirar areia para os olhos...

*Sininho* disse...

Até nos Censos se vê a vontade que há de se manter um país de fachada. O que conta são as estatísticas reveladas para parecer que isto está tudo muito bem quando na verdade há a precariedade que todos nós sabemos que existe!
É vergonhoso!

Tanita disse...

Ficamos que na estatística nacional, o nosso país deixa de ter tantos empregos precários e ficamos bem na fotografia. É isso.
Bj**

*C*inderela disse...

o trabalhador a recibos verdes é um trabalhador independente apesar de trabalhar para uma entidade patronal. o facto de ter que assinalar "trabalhador por conta de outrem" é para ficarmos bem na foto, assim vão camuflar os recibos verdes.

LaranjaLima* disse...

Ora bem… Vou tentar expor a minha opinião. Sei que para além de esta opinião estar longe de ser consensual, não vai ao encontro da maioria das opiniões sobre esta questão. Infelizmente para mim (como socióloga que sou) não estive dentro da construção do inquérito e portanto não sei qual foi na realidade o intuito desta pergunta, mas tem sido bastante debatida até nas aulas.

Penso que a questão essencial aqui é as pessoas perceberem que a finalidade dos Censos é conhecer a verdadeira situação das pessoas e da sociedade, e não aquilo que está no papel. Não sei se estou a conseguir fazer entender-me… :|

O intuito dos Censos não é saber onde é por exemplo a nossa residência fiscal, mas sim onde realmente dormimos e vivemos; não interessa qual o nosso contrato, mas como realmente exercemos o nosso trabalho. Isto porque, por exemplo na minha área (sociologia)só faz sentido trabalharmos se o fizermos com dados reais e não com os dados “formais”.

Pretende-se, através dos Censos, conhecer a situação face ao mercado de trabalho "de facto" e não "de direito", de acordo com as categorias usuais (patrões, TCP – trabalhadores por conta própria / isolado, TCO – trabalhadores por conta de outrem, ….).
Daí a questão 32… Com isto, pretende-se contribuir para a correcta caracterização daqueles que, embora pagos a recibos verdes, preenchem os atributos do conceito de "trabalhador por conta de outrem" (ter um local de trabalho fixo dentro de uma empresa, subordinação hierárquica efectiva e um horário de trabalho definido). Os “falsos recibos verdes” são na verdade/realidade trabalhadores por conta de outrem, embora pagos e declarados “de forma incorrecta”.

O “recibo verde” não existe como variável estatística porque não define “uma situação face ao mercado de trabalho”. Se forem correctamente utilizados é possível detectar o verdadeiro valor dos “falsos recibos verdes”, subtraindo o número de colectados nas Finanças pelo número de “reais recibos verdes” dados pelo INE.

A questão aqui é que não se pode perguntar directamente às pessoas se estão a fazer algo moral ou legalmente ilegal, como: “É imigrante ilegal?” ou “tem um lar de idosos não autorizado?” ou, neste caso, “é falso recibo verde?”… Mas a estatística comparativa, com cruzamento de dados de diferentes origens, consegue confirmar dados reais VS dados “formais”. E é a meu ver precisamente este o intuito da questão 32 (tal como outras): detectar dados reais “escondidos” e não escondê-los, como a maioria das pessoas estão a pensar…


Espero ter conseguido expor o meu ponto de vista, embora saiba que a opinião não é partilhada pela maioria das pessoas. Mas é a explicação (fundamentada pelo conhecimento da área) que eu encontro para esta questão. ;)

Ana disse...

Uma maneira de esconderem a realidade dos falsos recibos verdes, porque se colocas trabalhador por conta de outrem eles nunca saberão os números da porca realidade.
Felizmente que já não trabalho a recibos verdes porque se trabalhasse sinceramente nem sei o que respondia, mas já ponderei fazer uma reclamação para o site deles a expor o meu descontentamento.
Beijinhos

NaRiZiNhO disse...

essa é uma das questões que vou responder "outra"... recuso-me totalmente a assinalar por conta de outrem quando pago quase 30% do meu ordenado para a segurança social. e se ficar doente nem direito a baixa tenho.

Hannah disse...

Olá Nokas.

Gosto bastante do vosso blogue, leio com certa regularidade, mas não tenho por hábito comentar. No entanto, hoje abro uma excepção.

A pergunta 32 dos Censos tem causado muita discussão. Como quis responder sempre a realidade nas questões dos Censos, nesta questão assinalei como se fosse trabalhadora por conta de outrem, quando na realidade sou um falso recibo verde. O que fiz a seguir? Enviei uma queixa para o Provedor de Justiça para que a pergunta fosse reformulada. Se vai ter efeito? Não sei, mas demonstrei o meu descontentamento com a forma como a pergunta é colocada (e quase que temos de responder daquela forma). Sugiro que todos os façam...